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quarta-feira, 15 de abril de 2020

Livro de banheiro

Para muitos, um banheiro pode ser um lugar bastante inusitado para que seja encontrado um livro. É, na maioria das casas, passadiço para revistas de fofoca ou esconderijo das revistas ditas masculinas.

Porém, aqui em casa sempre aportaram grandes livros. Por aqui, em verdade, os livros que estão a ser devorados no momento, os protegê que prendem atenção e jogam a nossa existência para aquele mar fundo e calmo do horizonte, sempre vivem por essas plagas.

O atual é essa biografia do Jorge Amado, sensacional e belamente escrita pela Joselia Aguiar.  Conheci esse livro através de uma chamada do Canal Arte 1, onde a escritora fazia uma listagem das obras fundamentais de Jorge Amado.

Um dia, junto com a Ane, fomos lá, no Cinema Glauber Rocha ver algum filme Belas Artes e na linda livraria LDM, bem na vitrine, estava esse livro. 

Levei o da vitrine mesmo, filho único do espaço.

A obra é um daqueles livros que você quer ler em uma sentada só, daqueles que você abandona mulher, emprego, praia (também não vamos exagerar) pra ficar ali, derretendo-se em cada passagem da vida do maior escritor baiano de todos os tempos.

Das biografias que li, "só fica atrás" da de Pierre Verger ( do Jean Pierre Le-bouler ) a de Clarice Lispector (do Benjamin Moser) e a de Stálin (Stephen Kotkin).

O livro da Josélia é saboroso, assim como a vida de Jorge na infância, Jorge sendo o intelectual militante do comunismo, Jorge e Zélia, Jorge e sua plêiade de amigos e amigas enfim, a vida de um escritor que como poucos soube fazer da própria vida uma obra de arte.

Apesar de tantos livros, de tantas histórias, o escritor, vizinho por anos de minha avó, minha mãe,  foi o responsável por convencer-me a usar roupas coloridas e a amar ainda mais meu recôncavo, minha Bahia, nossa Salvador.

Quando estiverem em Salvador não deixem de visitar a Casa de Jorge Amado, tanto a do Pelourinho como a do Rio Vermelho.

domingo, 5 de abril de 2020

Limão na beira da estrada é sinal que podemos fazer limonada saborosa



Domingo sempre é um dia que promete, sempre é domingou pra mim. O de hoje
promete ser um dia bem ensolarado e com a tábua de maré dizendo isso, fica
sossegado ir na praia (Paciência ou Bacia das Moças) depois da minha atividade
física.


Praia da Paciência, no bairro do Rio Vermelho, Salvador - Bahia











Além disso, tentarei, no dia de hoje, agilizar algumas pendências relativas à adequação dos custos mensais com o corte salarial implementado pela empresa onde trabalho.


Enfim, uma hora ou outra teríamos, como os outros trabalhadores do país, que sofrer por causa do COVID - 19 (acentuada queda da demanda de óleo dentro e fora do país) bem como, aí algo específico da nossa indústria, a variação abrupta do valor do Brent ocasionada pela disputa entre OPEP e Rússia.

A empresa divulgou um material mas, infelizmente, não tenho autorização para
colocar aqui sem infringir o código de ética da companhia. Sendo assim, coloco
aqui algumas medidas tomadas pela alta diretoria.

Se achou um limão da beira da estrada... Vamos procurar agora o açúcar para a limonada!!

Será interessante ver, na vida real, como é trabalhar 06 horas por dia e como lidarei com tanto assim. Essa vivência, essa experiência, será ainda mais interessante pois, será um tempo de nova morada em uma nova cidade, Macaé/RJ, onde os problemas inerentes ao deslocamento urbano e distanciamentos casa - trabalho, são quase nulos quando comparados à Salvador.

Mesmo com a queda da renda, é algo que queria vivenciar uma hora ou outra da minha vida.

Por causa de tanta mudança, seja pelo COVID - 19, sejam pelas mudanças inerentes a possibilidade de saída total ou parcial da Petrobras do NNE, tenho tentado ajudar os colegas, de alguma forma, mínimo que isso possa ser, para tentar mostrar que toda mudança é um campo que sempre podemos ver algo positivo.

Enfim, acredito fielmente que o afeto significa cuidar das pessoas, independentemente se essas pessoas concordam conosco, se torcem pelo Jahia de Itinga (vulgo Esporte Clube Bahia) ou se a pessoa diverge em alguns sentidos do que eu penso. Mas, existe, obviamente, o limite da minha boa vontade versus divergência, principalmente  com pessoas que tratam desrespeitosamente condição da existência humana.

Algumas perguntas ficaram "sobrenadante" após esse acontecimento.


Não só pra mim mas, e isso é maravilhoso, na cabeça dos  colegas que são pessoas mais esclarecidas, que são pessoas que sempre que faço o doce exercício da escuta, da escuta sincera e, como um deles sempre coloca, empática, melhoro mais como ser humano.

  1. Será que a gente, classe operária com poder aquisito de classe média/classe média alta, não estávamos em um consumismo muito exacerbado ?
     
  2. Será que podemos viver mais com menos ?
     
  3. Não está no momento de mudar de vida, de ter algo para além da nossa empresa ?


Mas vamos seguindo...

domingo, 29 de março de 2020

nuvem passageira

Nuvens alaranjadas
sempre passam
diante das nossas retinas.

Mas,
nem por isso são,
necessariamente, 
tão somente engarrafamento rabecão
na porta do Campo Santo.

Outras pulsões
de maneira sorrateira
aproveitam pra rasgarem 
a azulada abóbada

Para tanto e para tudo
até mesmo o mais nobre dos intentos
se faz necessário 
o silêncio
o cinismo
a malícia 

Copo cheio
copo vazio

Matita Terê dançando com Ramalho

Bem ali, na curva, bem ali onde o velho silêncio caminha sem pressa, sem pressa de sair de cena, que eu tenho meus pés com afinco.

Como uma frondosa jaqueira, daquelas com a copa cintilante de idéias, fico aqui, encarregado de esperar a noite ir dormir.

Com ardor, todo santo dia a ventada do mar tenta, em vão, me convencer que isso não é cousa que deva gastar pestanas. Sopra então, seu hálito macilento, com perfume de anis de sargaço, lembrando que bem perto existeque lençóis de cetim e  corpo mais que carinhoso.

Mesmo assim, nessa hora derradeira, coloco  aquele capote cansado. Não esqueço de costurar , nessa forragem carcomida pelos avessos de outrora, essa trama estranha, esse linho de sussurro de "Crônica de uma Casa Assassinada" + " Rancho das Nuvens". 

Como sou peri_gozo, pinto esse casaco disforme com a paleta sensual que preguiçosamente rabisca, passo a passo, minuto a minuto, todas  as nuvens ao meu redor. Enraivecido, louco de ciúmes, o mar, em conluio com a noite, tenta, através do tempo, gestos desesperados contra a minha pessoa:

alarmes tocando, 
Google Calendar piscando, 
"volta pra cama amor", 
boletos vencendo hoje,
(etc)

Nada adianta para quem tem fome pela chegança, pelo grito e soluços do bebê, pelo raiar das possiblidades de tentar refazer, sobre tudo e sobre todos, de novo e de novo.

E assim, na ingratidão com os mortíferos de plantão, nessa dança contida de auto sublevação, sigo, entre uma linha de código e outra, entre um conselho e outro do Luciano Ramalho,  caminhando tenaz diante de todos os precipícios.


O dia vai brilhar e mais um condenado da terra foi arrebatado pela vida. 

Vai logo, vai com pressa e compra um barco, uma marreta de 20 kg e boa quantidade de brita e de cimento. 

Enxuga o suor, toma um banho do Belo que no fim do fim do mundo, na ponta dessa sua ilha do afogado, você vai encontrar as condições perfeitas para construir uma ponte até aquela outra ilha, aquela ali que é tão ou mais íngreme quanto a sua. 

Foda-se ! Seje Arquipélagos.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Minas, 1975

"Hoje não passa de um dia perdido no tempo...".

Miltão em Beijo Partido, no antológico álbum Minas cantarolando sem parar aqui no pé dos meus ouvidos, meus laptops rodando e minha xícara de café. 

É isso. 

Chuva danada lá fora, uma pandemia global que assusta toda a humanidade, tudo muito escuro e  aqui, no meu quintal, um orixá vai sussurrando  em mim (vocês já ouviram Milton Nascimento em Ponta de Areia, nesse disco?) alguma coisa inexplicável, como um doce abraço de alguém desconhecido  mas, e ao mesmo tempo, um gesto, um abraço sincero de pai e mãe.


Ainda não compreendi muito bem o que tem levado as pessoas a toda essa reticência em achar chato essa quarentena por causa do COVID - 19. 

Entenderia isso advindo das classes com maior grau de precarização socioeconômica, pela obviedade da possibilidade da perda dos exíguos "empregos" ou outras formas modernas de sub sobrevivência dos atuais condenados da terra. 

Porém,  ver esse desespero da classe média e classe média alta, que são aqueles que tenho contato, demonstra o grau de escárnio que essas pessoas tem diante de si quando olham no espelho da sua depauperada (in)existência. 

Sempre, desde que vou puxando da memória mais longínqua, lá longe longe, na adolescência consciente (1998 em diante), lembro de ficar assim das 02:00 da manhã em diante, ouvindo sem parar os CD dos meus pais que ficavam na sala. 

Não deixaram castelos, casa de praia, barras de ouro mas, vinis e cds do melhor da MPB.

Lembro que nessa época, cada movimento do meu corpo era extremamente bem calculado, os milímetros eram vencidos passo a passo, pisando macio no freio para não acordar ninguém.

Obviamente que meu utensílio obrigatório, dia após dia, era aquele fone de ouvido imenso, com a fiação espiralada até o conector P10 e todo esculhambado, com a conexão toda remedada é que toda hora eu tinha que apertar com fita isolante para não perder um dos lados da saída de áudio. 

Era um amanhecer beijando e deglutindo bem devagarinho a régua e compasso de Raul Seixas e, principalmente Caetano Veloso. Chico, Gil, Roberto Carlos, Jards, Milton, Tom Zé, Jobim, Queen of the Stone Age, Bethânia apareçam bem bem depois.

Esses dois foram os Vice Reis da minha caixola por muito tempo. 

Também, além dos Cds, tinham as fitas que meus amigos Tasso e, notadamente Marcelo, lá do inesquecível  CEFET - BA, trocavam comigo. 

Foi assim que fui conhecendo e povoando meu ser com gente como Rush, Nirvana, Pink Floyd e Rage Against the Machine. 

Vagando mais ainda, foi ali, nesse ponto da minha história que, ali, alone alone, naquela especial loja da Aky Discos, nessas andanças a pé que sempre gostei de fazer por Salvador, na inóspita (para pedestre andarilho) Avenida Juracy Magalhães, quase na entradinha do Horto Florestal/Embasa, que o acaso e a beleza da arte da capa, me fez levar OK Computer, do Radiohead pra casa.

O finalzinho da madrugada sempre foi pra mim um bálsamo e uma tenra mentira pois, tinha que dia após dia voltar 20 minutos antes, até minha cama, no quarto que dividia com minha avó, para que minha mãe não soubesse que eu, assim como ela e minha avó, tinha uma baita insônia, mesmo que essa fosse positiva.

Espero que todos possam experimentar essa possiblidade de refazimento, de reflexão e amor a si.

Ps: Minha avó ficava sabia de tudo mas ficava calada, só saboreando saber que seus genes estavam ali presentes.

Quem sou eu

Bom, eu sou acadêmico do curso de Engenharia Elétrica da Unifacs e tenho grande interesse na área de Processamento Digital de Sinais (PDS), sobretudo no estudo de sistemas não determinísticos e no processo de produção de música com o auxílio do computador.